terça-feira, fevereiro 28, 2006

Num dia de sono e de debilidade do ar lento e pesado, trago-vos uma mera lufada. Não queremos ar que seja fresco à força, mas sim como uma extensão da naturalidade do respirar. Assim, bafejo-vos dois novos blogs de hálito a passado, pertinente por factual e impertinente por desactual, vaporizando assim as narinas da memória, bem como as da curiosidade, mais vaga ou menos. Mais perfumado ou menos (frequentemente odores algo preemptórios de ingredientes sem receita, dada a lassidão pontual de um por vezes carácter desprendido e iniciático), tal serve por um lado para desmembrar a hostilidade de um esquecimento colete de forças, por outro, para a curta figuração no teatro quotidiano, em máscara de Carnaval a tapar o impreciso da plateia.

Ultrapassando porém, sacudindo-os, os enleios intercalados de si, estradas-excursões expressivas, resumo num ponto partido em dois (por divinização da separação das águas, para além do sentido que efectivamente se flutua geral, seja ele o senso comum) o hoje ponto, recta de antes, e são-no, aos retalhos, a prosaicidade descritiva em lógicas com tendencial explicitude (esta) e o embebimento experimental da lógica supra-algébrica e humana, em tendencialmente poética aquisição de tradições expressivas, decadentistas em frequência (est'outra).

Exposta então a matéria-prima, as suas raízes temporalmente materiais, e as suas raízes orgânicamente razões. Deposta?

A vossa vez.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

(tudo isto que postei abaixo é da semana passada. (who gives a fuck))
Meio andamento


Caminho-me, teço-me mapa,
betoneira de alaridos
salpicos; estudo-me tecidos
geográficos, viro-me capa,

escrevo-me berro andante,
sufrágio cimento de ares
agora mixórdia de pares
ideia-acção; leio-me amante

de páginas rasgos soltos,
beijo-me história inscrita
na construção lenda infinita,
deito-me livros revoltos.

Tropeço-me cama de excesso
alicerce pontuado reticente;
duvido-me teatro estridente,
romance, edifício, possesso.

Sinaleiro, páro-me planos,
faço-me escala indefinida,
conjuro-me viagem esquecida,
fecho-me obra, caídos panos.
Sítio barulhento


Não permitirei que a intensidade
me dobre e me force a entrada,
por ser ela, de fútil, indesejada,
de fútil e de algo que me é saudade.

Não recordo ao certo, nem entendo
ao certo, mas nisso sou humano
e fútil. É mais profundo o engano
de que falo, ou assim penso. Ofendo

a minha sinceridade ao fazê-lo?
Tratar-se-á apenas de ter dos nervos medo,
de algum preconceito que não cedo,
de alguma falsa integridade o zelo?

Não sei; a luta continua, e o cansaço
com ela. Cada vez menos certo,
o raciocínio - cada vez menos me acerto.
Contudo, saberei esperar, conter o passo,

pois se não mo permitir, estarei perdido,
quer dizer, não é bem esse o termo,
mas acostumar-me a ouvi-lo, ter-mo
imposto, ao som que me não faz sentido,

não poderá ser bom. Mas será melhor
este disperso punho cheio de arranques
em falso, engasgados em ruído-estanques?
Não sei; não o sei já, já só um ror

de incertas notas musicais me traçam
o rascunho de alma em que figuram
as cores a preto e branco que seguram
o silêncio dos pensamentos, que se amassam

num empapado baço. Assim me encobre
a dúvida, e enquanto sou esta roupa
doem-me o estômago e a língua, sem polpa
para digerir ou saborear - torno-me pobre.
Fragmentos... É quem sou agora mesmo. Vrummm vrummmm... Coisas! Eu digo coisas! Mas o tempo e os autocarros continuam. Chegado aqui, destruo-me de não ter escrito, fixado, emoldurado, tornado memorável aquele tudo que já não é, e que não foi. No fundo a tristeza é de não ser, independentemente de um tempo verbal contextual. Desejos simples? Calmas construídas? Projecções complexas? Brincadeiras? De qual das passagens sinto a falta? Mas que dia atribulado! Talvez de todas um pouco. Ora, e eu é que sei? Mal dei por isso, mas foi um dia de variedade considerável. E alguma produção. Mas, enfim, esta última... ficou sentada lá, no autocarro. E lá seguirá, orfã, olhada com indiferença curiosa até à paragem depois da última. Enfim, seguirei nesta outra carreira até breve.
Soneto a duas cores

Vergonha que me silencias,
és o silvo que me chicoteia
a poesia. Calças-me a meia
de chumbo, e tudo o que crias

é um tombo pesado, sem arte.
Tento andar mas não consigo -
o meu lombo está de castigo.
E nisto o meu coração se parte.

Oh, quando tudo o que eu tentava
era sonhar em alta voz...
Mas a vergonha profunda cava

em mim este abismo atroz.
Para o pintar de verde e rosa, o que eu não dava...
É que eram essas as cores com que sonhava.
Momento poético

Que eu, da silenciosa saliência
que é o lago deste dia
possa dizer "Enchi-a
com o sangue da poesia"

Espraiando-me, banho-me
nela, embora sem veia,
e rebolo-me e tenho-me
duna, embora sem areia.

E que eu sulque este palpitar
antes do tédio, e demarque
as rochas em torno deste lugar:
os canhões antes do desembarque.
Calma, que vens pela manhã dentro
infiltrar-te na minha circulação, corredores fora,
sê o caminhar nesta poltrona em que me sento,
torna-me o estontear das ilusões, sorridente,
faz-me sentir que esqueci todo o restante,
remete-me o incompatível para um outro momento.

Que o meu susceptível seja apenas face ao vento,
à brisa suave que chega lá de fora,
filtrado o despentear que incomoda
ao longo do ruído que alerta,
tudo isso, os narizes estampados na porta
enquanto eu sopro calmaria cá dentro.

E que este aroma a nada seja a respiração, bem fundo,
que esta luz de sombrinha clareie o tom de pele suave,
e que as conversas que não tive coexistam
neste ininterrupto burburinho, ténue canto,
a música dos recantos espaçosos.
Que eu me alheie perfume, claridade e harmonia.
Pequenas grandes violências

Sátiras desumanas de boca em boca
viajam, pela sociedade em redor.
Carregam-se as armas, pressa louca,
dispara-se assassinando o amor.

Desmoronam-se as lajes abstractas
que piso, afundam-se os verbos,
partem-se substantivos, pelas actas
prescritas rompem-se os advérbios.
O plácido da luz teve a contra-indicação de me dissipar da certeza no fraseio. Assim, sento-me e espero na cadeira em deslocação, assimptótico ao dia.

Choro dissabores com o meu riso. Choro dissabores e enterneço-me deles. Fito a passadeira do Nunca e atravesso-me tinta, nela branca. É esta a minha fronteira. Procuro a mãe da posição nos vultos frontais. A comunicação são os motores que roncam de lado.

Oh, triste e terna biografia de um caderno em eterna iniciação. Este Inverno outona-me as folhas de uma alma entreaberta, ideias vazantes. Vem, vem com a tua projecção, lembrança artificial que me sugas dimensão. Abre as tuas páginas para que eu me imiscua linhas e ressurja, às travessias de cá para lá pautadas, contornados ócios, palavras quadriculadas. Não, mas não me vires com as tuas páginas de arrastada ventania. Não me vivas já; quero primeiro trautear-te de mim. Em calor ou insistência...

Adoração platónica à veia tectónica dos nossos solos, em físicas musicais. Fúria corpórea de uma alma sangrenta. Todos ouvem o conclusivo provérbio qualquer na tradição do oratório, embuídos de grandificação e da disciplina da grandificação, em seguranças. Arranca-me deste sofá, garra jovial, enquanto te esboço. Visão que me perfumas as narinas de alma.

A minha mensagem é uma de repulsa...
as notas da aragem... corrente de ar avulsa...
o trigo da criação, a metade que faltava
ao intelectual pão que o seu pôdre ostentava.

Vamos todos rimar e ecoar estéticas. Por um megafone qualquer, admirar estéticas. Podar arbustos no jardim citadino. Pode ser de aversão, pode ser de civilização, desde que à tesourada. É o mote dos teóricos da crítica.

Oh, mas eu enclausuro-os no exterior de um banco de jardim sem jardim. Sejamos, pois, os nossos bancos de jardim, e deitemo-nos neles com dores por todas as costas orgulhosas. Sejamos palco e bancada do espetáculo de emoções em saco de compras sem saco. Sejamos o incenso, pois então, o fumegar, o saboroso mastigar da matéria em combustão, e o aroma que fica.

Isto não é nada divertido... Nada divertido!... Ah, devo ir à neve, de encontro a avalanches, ah! Ah, as avalanches! Revolvam-me enquanto derreto. Rebordo-me por interiores afora em decorações montanha abaixo, e chego a um cume de aspiração vertiginosa, atentados à escala do sublime. Ergo alto o punhal impreciso e esfaqueio os revisitados e ultrapassados simbolismos vagamente pessoais e misteriosamente em português. Entro na loja e peço o produto abstracto, indefinido na medida de um vendedor de peito rasgado. Oh, pandemia dos sentidos, minimal compressa de genes intencionais quase mutantes.

Neste céu verde de tão folhas, choro insolente, gota de nuvem por arrancar.

Há dias em que, a fazer coisas que não nós, somos o discípulo que ouve o velho sábio a pensar sob a forma de um rasto de avião pouco cá. Depois, velho cruzamento de antevisões, cai dos céus a mentira feita pardal. Oh, previsão de extremismos ligeiramente egoísta, que és, afinal, em brevidade de exaltação. Oh, ser eu não este bucolismo fútil de paisagens existenciais.

Escorrego véus de realidade, inexisto a toda a força. Sou as peles de camurça que não visto. Mas que esteja na declamação o ganho, economias imateriais em ascensão, zénites. Escadas intermitentes a subir de luz rolante, iluminando-me através das cidades. Estilhaços de tsunami por um mar mucoso a pouca maré. Roupa que seca num estendal de partilha.

O meu único Deus é o livre arbítrio. E mesmo esse, só nos intervalos do Destino.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Prós estudantes de Cronologia: feito dia 2 de Janeiro (partes 1, 2, 3, 6), dia 2 de Fevereiro (parte 5) e dias 7 e 30 de Janeiro, 2 e 7 de Fevereiro (parte 4).


Cruzeiro humano


I
Repentino vento

Por Deus - agora vejo
(e como!) a realidade
obscura desta sociedade
de disfarce e de desejo

permanentes. Não pestanejo,
tal a límpida claridade
com que esta dorida atrocidade
seu impacto emana. Velejo

nestes mares revoltos
de multidão desprovida
de compreensão, soltos

das amarras os nós.
Mais valia reprimida,
esta visão... Parto veloz.


II
Mar de gente

Lá longe, no alto mar, uma miríade
de gente nada em turbilhão. Que susto!
Querem chegar à costa, a todo o custo.

As braçadas que dão são uma tríade
de esforço, de vontade e de corrente.
Isto num rio provocaria uma enchente.

Uns elegantes, outros mais rebeldes
na forma como o braço encontra a água,
e mais diversidade ainda nos debaldes

percursos à marítima superfície.
Como ninguém sabe a direcção, nadam à toa.
Uns quantos apostam numa, até à calvície;

outros vão mudando, com medo do fracasso;
outros nadam frenéticos, aos círculos doentios;
outros ainda deixam-se boiar, de cansaço.

Há ainda os que, nos barcos em madeira,
vão ao sabor do vento, em lentos rodopios,
pois lhes parece indiferente a maneira

como se avança - sendo uma questão de sorte,
que diferença fará ir para Sul ou para Norte?
O dilema é só o de esbracejar mais ou menos.

Assim, recostam-se nas barcas solitárias
sem fé nem alento, autênticos párias
dos que lhes roçam o casco, sejam hostis ou amenos.


III
Mergulho primeiro

Posto isto, mergulhei,
aventureiro,
qual cinzas sopradas
de um cinzeiro.

Lá, depressa encontrei
o balanço
das ondas azuladas
aquém do nevoeiro.

Lá encontrei também
a inquietação,
não soube nadar bem,
fui um inapto ganso.

Não pude mais regressar,
ditou o vento.
O barco velejou-se, num afastar.
O vento soprou-me um não.

Fiquei a sós com o mar,
e as pessoas
passaram, sem dar por mim, a nadar.
Dei por mim em isolamento.


IV
Gente do mar

Boiei em desfazamento,
chapinhando à tona da água,
até me virem arrancar a rima.
Braços, corpos, forças às dezenas
tomaram-me por obstáculo fútil
e o verso fez-se supérfluo,
subaquático e adjacente.

Esbracejos, dores e soluços
sucederam-se em sobrevivência.
Fora de um meio ambiente,
adensei-me selva de estragos
e emoções profundas. Turbulentas,
as energias camufladas, em impacto,
esvaíam-se sem braço pela correnteza.

Em encontros incessantes de alto-mar,
o meu corpo atordoado pelo marasmo
servia para propulsionar os peregrinos
em multidão e fervor de natação.
Muitos, possantes e sedentos
de avanço no vasto mar atlético.
Grande vaga humana em pleno rebentamento.

Outros, em ligeira emersão,
deixavam-se arrastar sem grande esforço,
condicionados pelo mundo que eram todos,
abstinentes de medir mares e vizinhos,
sujeitando-se a nadar em vaga prancha
de um surf social e cativante
sempre que em comunhão nela se erguiam.

Afastei-me de uns a nado convulso,
de outros dei continuidade ao afastar-me.
Seguiam todos numa migração sem rumo
que eu me dediquei em esforço a evitar.
Reflexos de um pouco confortável oceano.
Estremeci o frio, espaireci a pausa,
e de noite brilhei a lua calada.

Esporádicos encontros doridos
continuaram mar adentro, passageiros,
transportando consigo a escotilha
de ver o baço por um navio inútil.
A pouco leme, as órbitas sucederam-se
em reconhecimento astral diurno
feito de guinadas pouco mundanas.

De dia, a troços, fui inventando margens.
Aos poucos, o chapinhar transformou-se
e aprendeu o desvio a meia-distância.
Também a visão se acostumou
e reconheceu, entre membros ocupados,
contornos distintos, por vezes semelhantes,
que não os de peixes brutos de cardume.

Combatente sem escudo, remédio ou antídoto,
intoxiquei-me mortiço pelas águas,
em viagem, aproximando-me dos postos
de desafios escondidos e tendo por bagagem
a pronta ausência ao mais pequeno salpico
da água de outrém, deixando-me para trás
em longas quilometragens de fôlego a recuperar.

Nesse passeio contornado, inundei-me
de compreensão às camadas do que via,
ao que me engasguei de pulmão seco,
com a trémula consciência do meu ser
face à segura consistência dos compostos
líquidos, alheios e vizinhos.
Passei a desviar-me do meu próprio nado.

Contudo, tentei que não se afogasse a luta.
Motivado por estar vivo, fui boiando,
por vezes nadando. Porém não mais a direcção
se me avizinhou em companhia,
e passaram-se várias batalhas inconclusas
em que não fiz parte de um sentido que durasse.
Assim me dei às ondas - não me dando à gente do mar.


V
Solitário mar
ou
Rising de(e)cay

Suave e terna voz invísivel
que me embala insuficiente
de um mastro. Pouco plausível,
o navio sem quilha, assente

no mar que se aterra poluição
no sorvido naufrágio da graça
que brinca vaga, na imaginação.
Navego em carícia pela massa

disforme deste cruzeiro maciço,
apalpando a dor terna e suave
da súplica, implícito e castiço
sentimento de maré em enclave.

Todo este mar de imprecisa posição,
sem mapas, é a inexistente praça
de uma cidade à beira-mar sem razão,
fundada e afundada em desgraça.

E os mapas que não há em incrível
redemoinho desenham um descrente
caminho no topo de um pouco crível
mastro. Trepo, decadência ascendente.


VI
Mergulho último

Senti crescer uma forte caimbrã.
Senti-me fundo num mar em câmara lenta.
Afoguei-me lento num mar sem fundo.
Doí-me. Chamei vão pela mamã.

domingo, fevereiro 05, 2006

Post-brinquedo feito de estilhaço.

O desnorte... A recapitulação. No ontem de hoje, a paisagem surreal de um autocarro.

Céus! Sê solene, solene como o vento. Não, mas embirra, embirra-te. Vá...

És a desgraça. Justaposto, és o fragmento de quem estava ali.

Queres ser cola, coitado, queres ser cola. Esfrega, esfrega-te bem. E cai ao chão e parte-te sem ninguém ver.

Absorve o elixir imperceptível. Impossível. Não te bebas, não te sorvas, não faças barulhinhos de palhinha no fim do molhado.

Mas quem? Mas quem??? Quem ?! e onde ?! anda ?! aos ésses ?! de estrada pouca...

Adjectivos, tempo e ciclo de sanidade. Um quase-batido de gelado confundido.

Venha o próximo...

Ensaios de apelo em feminino aleatório:

Catarina! Catarina, vem cá, vem ao cá de amígdala esguia. Surge do silêncio e silencia a dor em cantos tão suaves quanto os de dois fantasmas agradáveis recíprocamente torneados. A azáfama, credo, a azáfama, parafernália, a eliminação sorrateira de divindades, tudo isto é pó. Vem Catarina, e sopra embora o pó.

Cátia, anda até aqui. Balbucia-me ao ouvido a inveja, a mal contida. Chora a lágrima do impasse, e consola-me em desabafo o ombro amigo. Sê redescoberta e faz aventura da tímida sorridente.

etc.

sábado, fevereiro 04, 2006

Já de chave sonolenta, finda a arte de extroversão oculta, encerro não um mistério destacado, não um lânguido do ininterrupto, não um retorcido limiar de tédios de um lado e uma semi-automática luta do outro; apenas a citação visual da memória de um mês manuscrito, em frase descritiva e plena o suficiente.

Pus-vos aqui, enquanto a tempestade real não se promete, mais uns outrora rascunhos, bastantes. Para o aventureiro que decifra e absorve, interessado em se dar ao prévio, aí tem a recompensa em estirpe passada. Para os outros, continuem a aparecer que há-de também aparecer aqui mais qualquer coisa... Para o predominante Ninguém, muito desprezo para si também.